domingo, 29 de novembro de 2015

A borboleta





Tinha decidido que faria Faculdade de Biologia. Gostava do  mundo invisível e de ciências. Gostava em particular de observar as lagartas. Por isso, cuidava delas sempre que apareciam em seu jardim. Colocava-as num pequeno vidro, já todo apropriado para isso, e observava a lenta e mágica transformação. Antes um pequeno inseto rasteiro e até asqueroso para alguns, mas não para ela, porque sabia que era apenas um estágio temporário. O pequeno inseto ficava ali, passivo, apenas esperando o dia em que a grande mudança aconteceria. Parecia que tinha uma sabedoria interior, que ia guardando tudo o que via e ouvia. Ia acumulando toda a experiência que podia. Em um dia qualquer o casulo começava a aparecer , até que todo o corpo do inseto ficasse submerso em uma espera sem fim, dava a impressão que lá dentro não existia mais nenhuma vida. Por fora a cor era opaca, sem graça, o que reforçava mais ainda a idéia de ausência de vida. Até que sem ninguém esperar começava a aparecer uma pequenina cabeça e logo em seguida cores e mais cores submergiam daquele casulo sem importância. Aos poucos aquelas lindas cores se transformavam em asas. Asas para a liberdade. E ela ia embora , linda a bailar pelo ar. Não olhava para trás, e ia pousar na primeira flor que encontrava. Esse era seu ritual, observar a natureza no que ela  considerava de mais belo.
Um dia ao ver aquelas cores partirem sentiu vontade de segui-la, mas em  pouco tempo, por um minuto de distração a perdeu de vista. Sentiu-se então triste e melancólica, porque procurou e não a encontrou mais.
Voltou, pegou um outro vidro para começar tudo de novo, mas dessa vez sentiu medo. Medo de todo o processo.

Desistiu de fazer biologia.

A BONECA


  

Quando entrou no quarto e viu aquela boneca seus olhos brilharam. Ela tinha um rosto que lembrava uns pratos decorados, mas não era bem isso, tinha brilho nas maçãs do rosto. A boquinha parecia um coração bem vermelhinho e os olhos! Ah! Os olhos! Eram azuis como o céu, pareciam de verdade. Os cabelos eram dourados e cacheados e muito compridos. Ela poderia fazer lindas tranças por horas a fio, sem parar. O vestido era magnífico, cheio de rendas brancas de um pano bem fininho e todo bordado. Não, não era uma boneca! Era uma pequena fada. Ela jamais tinha visto algo igual. De repente ...
-          Ana, vamos. O que você está fazendo aqui neste quarto?
-          Ah! Mamãe só estava vendo aquela boneca, aquela fadinha.
-          Deixa disso menina. Desculpa Dna Quitéria. Essas crianças! Vamos, vamos. Você não devia ter entrado aqui.
-          Não tem problema – diz Dona Quitéria-  deixa a menina. Vamos pode pegar a boneca.
Os olhos de Ana brilhavam tanto, que parecia que havia luz dentro deles. Olhou para a mãe e viu reprovação em seus olhos. Então segurou a emoção e baixou os olhos. Obedeceu. Nesse instante, rolou uma pequena lágrima pelo seu rosto.  Retiraram-se do quarto mãe e filha.
Ao chegar em casa Ana foi direto para cama. Não quis jantar. Começou a sentir o corpo quente e o suor a descer pelo seu rosto. Começou a sonhar com sua amiguinha, muito loura e de olhos azuis. Elas corriam pelo campo e próximo a um riacho pararam para descansar. Jogavam pétalas de rosas na água e, de vez em quando, molhavam o pezinho na água muito fresca. Sem perceberem, a correnteza levou o sapatinho de sua amiga. Ana então correu para pegá-lo e sentiu que a água começou a inundar seu vestido e em seguida inundava todo seu corpo. A água aumentava e tão forte que o seu corpo começou a ser levado pela correnteza. Sua respiração ficou mais rápida... mais rápida. Então ouviu sua mãe chamando-a muito longe, depois sentiu uma mão lhe puxando o braço.
-          Ana! Ana! Volta!
Ana acordou. Estava toda ensopada de suor. Sua mãe estava ao seu lado com uma bacia de água e com um pano úmido, molhava sua testa e seus braços. Ana não entendia o que havia acontecido e perguntou a sua mãe onde estava sua amiguinha “A fadinha”. Sua mãe nem deu muita atenção, tal era a preocupação com a menina.
Passaram-se três dias e três noites e Ana continuava com muita febre e nada comia. Até que Dona Quitéria foi fazer uma visita e viu a menina ainda febril. Logo pensou na boneca. E disse:
-          Não será por causa da boneca Dona Amália?
-          Que isso! Dona Quitéria. Isso é bobagem. Imagina uma boneca! Acho que é da garganta.
-          Mas a senhora não me disse que nem o Doutor Santos, que eu pedi para ver a menina, sabe o que ela tem?
-          É verdade. Mas...  Veja lá Dona Quitéria não vá se incomodar por causa da menina. A boneca é da sua filha!
-          É.. mas ela já é moça e sua filha só tem 6 aninhos. A Sra não viu o brilho nos olhos da menina! Acho que ela queria pegar a boneca só um pouquinho.
-          Não Dona Quitéria, nós somos pobres e pobre não tem dessas coisas.
-          É Dona Amália, mas o encantamento não escolhe nem rico nem pobre. Espere um pouco.
Dona Quitéria retirou-se do quarto e, pouco tempo depois retornou trazendo a boneca e a entregou a pequena Ana. A menina abraçou a boneca com tanta força que nem percebeu que no pezinho da boneca faltava um sapatinho...
(Iracema Goor Xavier)




Poetas






CISMAM OS POETAS
QUE FLORES TÊM SABOR
QUE SAUDADE TÊM CHEIRO
QUE GRITA O SILÊNCIO

AH! NADA ACOMPANHA
O PENSAR DE UM POETA
QUE BEIJA A  BOCA DA NOITE
SALTA DA PONTE DO SONHO
E ATÉ AO RELENTO...
COM OS SENTIDOS ATENTOS...

RENDE-SE À VOZ
DO CORAÇÃO
QUE GALOPA
AO ENCONTRO DO VENTO


Iracema Goor Xavier

Memórias de uma carteirinha escolar


Nasci para ser importante. Primeiro me deram a cor azul (que eu adoro!), depois fiquei sabendo que ganharia uma roupinha linda, toda em plástico transparente. No princípio, eu não sabia por que iria precisar de uma roupinha, mas ouvi dizer que era para proteger, não rasgar, não molhar.  Mas o que vocês não sabem é que eu iria ganhar um nome de uma criança.  No início pensei que seria a única, mas me contaram que tinha uma porção de meninos e meninas e por isso precisariam de mais carteirinhas. Ufa! Eu não daria conta de tantas crianças e também era bom saber que ganharia outras amiguinhas.
Então chegou o grande dia, o dia em que ganharia um nome, mas não era um nome qualquer. Era o nome da minha criança. E eu carregaria também o nome da mamãe, do papai, da professora e de todas as pessoas que levariam minha criança para casa.
Fiquei muito empolgada, afinal se eu não estivesse presente a criança não poderia ir para casa. Então chegou o dia que eu seria entregue a minha família. A Diretora fez um discurso bonito para os pais e disse que eu era muito importante. E eu sei que sou!
Fui para a casa de minha nova família. Adorei! Fui tratada com muito respeito e carinho. Fui colocada em um lugar muito especial e a mamãe disse para a minha criança: “Olha não podemos esquecer a carteirinha, porque sem ela você não vem para casa”. Eu percebi como era importante e todos os dias de manhã e à tarde eu saía de casa e ia até a escola buscar a minha criança, no caminho encontrava outras amiguinhas. Um dia ouvi uma mãe dizer que tinha esquecido sua carteirinha, mas que não tinha problema. Fiquei sem entender.  Achei estranho, porque a minha mãe sempre me levava para a escola para buscar a minha criança. Um dia eu não fui, pensei que era final de semana ou feriado, mas não era, porque a minha criança tinha ido para a escola e eu não estava no meu lugar especial, estava jogada em cima da geladeira... fiquei preocupada, como minha criança voltaria para casa? Depois fiquei sabendo que deram uma tal de autorização e a minha criança veio para casa. Na outra semana eu cai no chão e me varreram para debaixo do sofá, não sei quanto tempo fiquei por lá, eu não podia respirar direito com aquela poeira toda, eu via apenas o pé das pessoas da minha família, tentava chamá-las, mas elas não me escutavam.  Fiquei tão triste que comecei a chorar, acho que fiquei até com depressão e quando a mamãe estava limpando a casa me achou, mesmo assim já não me sentia tão feliz.
Não sei, mas comecei a desconfiar que não era tão importante assim, porque a minha criança ia e voltava da escola e eu ficava esquecida e aquela tal de autorização sempre tomava o meu lugar. Comecei a achar que a minha família não gostava mais de mim, que não se importavam muito comigo. E que eu não era tão importante como a Diretora dizia.  Às vezes a minha criança me achava e me colocava dentro da sua mochila e eu ia para a escola e ficava feliz.
Um dia me esqueceram na janela e naquele dia começou a chover muito, minha roupinha de plástico não suportou tanta água e eu fiquei toda amarrotada. Comecei a sentir um vazio muito grande e tive vontade que o vento me derrubasse para dentro do bueiro e de lá eu não voltaria mais. Afinal, não gostavam mesmo de mim! Foi quando minha criança me viu, me salvou e disse: “Mamãe olha a carteirinha aqui! Tadinha, ela está toda molhada e com frio! Vamos cuidar dela, dar uma nova roupinha e eu quero que ela vá me buscar na escola de novo”.
            Nossa!  Senti tanta felicidade, afinal carrego comigo o nome da minha criança e não vou desistir dela. Eu sei que ela gosta de mim. Não sei quanto tempo vou viver, mas sei que enquanto viver vou cuidar bem da minha criança, como ela cuidou de mim. E sabem de uma coisa? A partir desse dia minha família não me esqueceu mais.
            Logo, logo nós vamos entrar de férias e eu também. Não vou mais para a escola, mas é só por um tempinho. Na volta às aulas eu tenho certeza que também vou voltar todos os dias para buscar a minha criança. E essa tal de autorização não vai mais me substituir.
            E a carteirinha sentiu, que o seu sonho seria realizado, totalmente, na volta às aulas.

Iracema Goor Xavier

     27/07/2011


Para Melissa



Era uma menininha linda de cabelos cacheados com apenas dois anos e meio de idade correndo por uma pequena pracinha. Em suas pequenas mãos carregava alguns pratinhos de aniversário para brincar de casinha, como dizia ela ao Seu Venceslau.
Colocou os pratinhos no banco da praça e percebeu que eles voavam como passarinhos. Não entendeu porque não paravam no banco de cimento e a toda hora caiam no chão. Observou as folhas caírem das árvores e começou a ouvir um barulho estranho, ao mesmo tempo arrumava seus cachinhos que teimavam em escorregar pelo seu pequeno rosto. Não teve dúvida, apontou seu  pequeno dedo em riste para o céu e disse: – Vento! Para agora!
Seu Venceslau riu e lhe disse que jamais iria parar o vento. Ela discordou e mais uma vez disse com mais ênfase: – Vento! Já disse pra você parar!  Tá desarrumando meu cabelo e levando meus pratinhos embora!  Seu Venceslau olhou para a pequenina e pensou que em seus longos dias de vida nunca tinha pensado em parar o vento.   Quem sabe aquela pequena menininha conseguiria, afinal é só uma questão de acreditar, e ela acreditava.
No momento seguinte, a pequenina  estava olhando para uma  formiguinha, mas o vento forte também a levou junto com a folhinha que carregava.  Seu Venceslau em seu pensamento lembrou de suas mágoas e dores e quase se perdeu no vento vago da solidão. Sentiu saudade do tempo em que o vento soprava sem o devorar e sem pedir licença para entrar. Voltou a olhar para a pequenina tentando encontrar um vento que não varresse de vez o seu ser. E o encanto aconteceu.
O olhar inocente da criança se encontrou com o olhar já bem vivido daquele velho. E deram um sorriso que alegrou todo o céu. O vento parou.  A beleza apareceu com seus tons dourados e naquele momento  não se sabia mais onde começava a criança e onde terminava o velho. Suas almas eram pura alegria. O vento parou,  porque reverenciou o encontro daquela que tinha uma vida inteira para aprender e iluminou com sua alegria aquele que tinha pouco tempo para viver.
Então o vento cantou:

Fui vento?
Não sei.
Não sei se fui vento, brisa ou tempestade.
Mas sei que soprei.

Não sei se soprei de forma branda ou forte.
Mas sei que entrei nesse lugar.
Não sei se entrei na mente, ou no coração.
Ou só envolvi por alguns instantes...

Mas sei que tentei ser vento bom.
Que leva as impurezas e que traz a chuva e o sol quente.
Agora serei vento em outro lugar,
E tentarei ser vento bom por todos os lugares em que soprar.

E a menininha se foi. Seu Venceslau ainda sorria por passar mais um dia de vida em que um pequeno ser tinha notado sua presença, de igual para igual.  Sentiu-se humano novamente e amou, amou profundamente aquela criança que dificilmente iria ver novamente. 

Iracema Goor Xavier


Intolerância






Cristo que não ama, que não tolera, que não perdoa?
Experiências espirituais vazias.
Deus foi morto (novamente)




Propriedade particular







“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu (...) A gente quer ter voz ativa e quer no destino mandar, mas eis que chega a roda viva e carrega este mundo pra lá (...)”.
(Trecho tirado da música Roda Viva do Chico Buarque)


O fogo foi chegando e aniquilando tudo o que estava a sua frente. As primeiras a serem queimadas vivas foram às pequenas e frágeis vegetações rasteiras. Elas não tinham para onde fugir e ninguém para salvá-las, pelo contrário, tinha o vento forte que parecia ter feito um pacto com o fogo, porque por todos os lados só víamos o fogo crescendo alto e com uma rapidez impressionante. O fogo encontrava uma árvore aqui ou acolá, mesmo assim como um matador implacável, primeiro atingia suas folhas e depois ia tomando conta de todo tronco, antes verde e cheio de vida, agora apenas uma sombra triste do que fora. O barulho era estridente, como se estivesse atingindo todos nós que presenciávamos aquela tragédia, impotentes diante de tantas chamas e de tanta fumaça. Alguns de nós até tentamos nos aproximar, para talvez jogar um pouco de água, mas o cenário era assustador. Por todos os lados as plantas agonizavam. Estávamos atônitos. Como tanta vida em um instante podia ter sido arrasada por uma avalanche dessa? Como aconteceu? De onde tinha partido tudo aquilo? Era apenas mais um sábado tranqüilo de sol e nos pegou completamente desatentos.
Um pintor veio correndo para saber o que acontecera, disse que seu trabalho tinha sido todo estragado pela fuligem. Um dia inteiro de trabalho para nada. Teria que lavar toda a parede e começar tudo de novo. Trabalho em dobro, tudo por culpa do fogo.
De repente olhei ao meu redor e vi uma multidão de desconhecidos, todos do mesmo bairro conversando e falando da calamidade. Culpavam o dono do terreno por negligência, que ele nunca aparecia por lá, que era um inconseqüente, porque o fogo poderia atingir as casas vizinhas.
Os bombeiros chegaram e sem conversar com ninguém se equiparam, pularam a cerca e começaram a fazer seu trabalho o mais rápido que podiam. Levavam consigo uma espécie de vassoura grande com cerdas de borracha e sem receio algum começaram a batalha contra o fogo.
Eu estava entre os que observavam tudo e pude ver as chamas destruindo uma palmeira que, imponente teimava em continuar ali em pé. No momento, tive à impressão que era uma pessoa amarrada a um poste, inocente, sendo queimada viva, porque não concordava com todo aquele horror. Calada, sem dar um grito de dor a palmeira foi sendo sucumbida pelo fogo. Digna, permaneceu em pé.
 Foi só nesse momento que me dei conta que havia uma placa enorme com o aviso “Proibido a entrada, propriedade particular”. A placa continuava ali como se pudesse conter alguma coisa. Depois fiquei pensando “Proibido a entrada”, pela gramática seria “Proibida a entrada”, mas isso não faz a menor diferença. Queria mesmo saber sobre o que era a proibição, de animais, pessoas estranhas, do sol, da chuva, do vento, da dor?  Existe um controle sobre isso?
 A primeira a invadir aquele espaço foi à vida com suas plantas de vários tipos e tamanhos. Mas o que assistimos naquele sábado foi à entrada covarde do fogo que sem pedir permissão, como um “serial killer” foi matando a queima roupa o que via pela frente. Dia triste, dia de trauma para todos nós que vimos àquela tragédia sem poder fazer nada para impedir.
Missão cumprida, os bombeiros foram embora, deixando só as cinzas. Ficou a saudade daquela vegetação tão linda e jovem que ainda tinha tanta vida e beleza para alegrar nossos olhos.



Iracema Goor Xavier


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Primeiro Impacto continuação (parte II)

Alguém um dia disse que toda palavra escrita ganha -autonomia e perenidade- , não coloquei entre aspas , porque não sei quem disse isso, com certeza não fui eu, mas concordo e por isso, continuo meu relato. Logo depois do primeiro impacto me organizei para a cirurgia.  O convênio colaborou em aprovar todos os exames, que foram saindo com muita rapidez. A participação de minha médica, Dra. Andrea Cubero, foi fundamental para agilizar toda a parte burocrática , além de meu marido, Renê, que quase todos os dias,  saia para resolver mais alguma documentação. Comecei a procurar sites onde vendiam perucas naturais, para escolher algo que se parecesse com meu cabelo. Dessa vez iria usar um cabelo curto. Cheguei a fazer alguns orçamentos, mas deixei para ver isso melhor após a cirurgia. O dia da cirurgia coincidiu com o chá de bebê do meu netinho Miguel. Dia 04 de Julho. Foram muitas idas e vindas até acertar tudo no convênio. Nesse ponto meu marido, Renê, foi fundamental. Ele resolveu tudo e o dia chegou. Estavam presentes meus filhos e meu marido. Fui para a cirurgia ciente do que iria acontecer (mastectomia). Estava bem tranquila, mas  me preocupei quando vi ao meu lado na sala pré-cirurgica, uma mulher, ainda jovem que iria fazer uma lipoaspiração. Ela achava mais fácil do que fazer uma dieta. Só que, era hipertensa e sua pressão não colaborava, não abaixava, perguntou o que eu iria fazer,  e porque estava lá. Eu disse que iria operar o seio "câncer de mama". Naquele momento ela me olhou com muita pena. Eu disse que ia ficar tudo bem. Logo depois fui  levada a sala de cirurgia e fiquei pensando o porquê de algumas pessoas arriscarem a vida , só pela aparência. Enfim, eu não tinha nada com isso.  Dormi, dormi um sono bom. Quando acordei estava na semi UTI com o anestesista do meu lado dizendo que estava tudo bem. Fui para o quarto e percebi que estava toda enfaixada. Senti muita dor, mas já era esperado. Me deram muitos analgésicos para o controle da dor. Foi quando meu marido e meus filhos falaram que a cirurgia tinha sido melhor do que era esperado. Que a grande área que seria retirada não estava contaminada pelo câncer. Era uma inflamação causada pela presença das células cancerígenas e que o meu seio não tinha sido todo retirado. Puderam preservar uma parte, fizeram um quadrante, em resumo, o quadro havia mudado radicalmente. Fiquei muito feliz. Logo fui para casa e minha filha e meu marido ficaram cuidando de mim. Passados os dias mais críticos, com os drenos, que eram bem desagradáveis, mas necessários, voltei a minha médica para saber qual seria o passo seguinte. Ela estava radiante diante do sucesso da cirurgia e me encaminhou para o oncologista, que decidiria se eu iria fazer a quimioterapia. Minha médica me adiantou que provavelmente eu  não precisaria fazer a quimioterapia, pois na cirurgia conseguiram tirar todo o carcinoma invasivo. Tinha que esperar o que o médico  iria decidir. Fomos ao oncologista muito ansiosos, eu, meu marido, meu filho. O Dr. nos explicou o tratamento, que seriam 28 radioterapias e hormonioterapia por cinco anos. A quimioterapia estava descartada, pois como o médico falou; "Seria dar um tiro de canhão em um mosquito minúsculo na parede". Fiquei radiante, Graças a Deus, não teria que fazer a tão temida quimioterapia. Eu já sabia que do tratamento do câncer a pior parte , não seria a cirurgia,  mas a  quimioterapia.  E não é para menos que a Mirella descreve tão bem em seu texto  " O holocausto está em nós" as consequências devastadoras da quimioterapia. Agradeci muito a Deus, pois muitas mulheres não tiveram essa opção. Vejo que a prevenção anual, fez toda a diferença. 
Em setembro comecei a radioterapia e dentro de quase dois meses, pude conviver com mulheres incríveis. Com histórias bem diferentes, umas das outras. Mulheres que tinham o mesmo sentimento, os mesmos receios e as mesmas superações. Em mim foi nascendo um desejo enorme de olhar mais de perto pessoas que sofrem e que precisam de ajuda, de uma escuta. Conheci mulheres que foram abandonadas pelo marido, após saberem que tinham câncer. Bem, por aí se vê, que amor é uma palavra desconhecida para esses homens. Mas, também conheci mulheres, que tiveram em seus maridos e familiares todo apoio para enfrentar essa doença. Aos poucos fui percebendo que precisamos enfrentar tudo que a vida nos apresenta, sempre com esperança. Que o câncer não pode ser maior do que nós. Muitas mulheres precisam de acompanhamento psicológico para enfrentar essa fase, e devem fazê-lo, sem nenhum problema. Afinal, ninguém está preparado para passar por isso. Vi também que algumas mulheres preferem se recolher. Querem ficar quietinhas nesse momento. Também entendo. Mas existem aquelas que precisam compartilhar, conversar, trocar experiências. Acho que me coloco nesse último grupo, além de compartilhar, quero me envolver, ajudar e falar que se isso acontecer, devemos nos jogar nos céus como pipas enamoradas do vento. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O Holocausto está em nós ( autora Dra. Lillia Mirella da Silva Bonato)



"Abrem-se as cortinas! O Palco está dividido em dois cenários. De um lado o quadro fantasmagórico, assustador e inaceitável do monstruoso sofrimento a que foram submetidos os judeus e todos os classificados como nocivos aos nazistas. De outro lado, os pacientes submetidos a QT. Estranheza!!! Estranheza!!! Perplexidade!!!
Obviamente que não objetivamos comparar nada e muito menos fazer com que o sofrimento a que somos submetidos pela QT e a doença seja análogo ou parecido com todo o Holocausto/terror em que mais de seis milhões de seres humanos foram mortos em total injustiça e desumanidade.
Entendam, é só a visão de uma poeta.. um quase delírio.. alegoria insana... poetas são assim, doem-se não apenas com os espinhos, mas inclusive com o veludo das pétalas das rosas. Permitam-me esse delírio febril.
Sim. No limite, nós submetidos à QT e invadidos pelo carcinoma, parecemos habitantes vindos de alguma outra constelação ou quiçá, dimensão. Desprovidos de pelos, tom peculiar e característico na pele e tantas outras características. Seres diferentes obedecendo a uma espécie de padrão imposto pela química, pela radiação, pelos medicamentos, pela reunião de uma série de fatores.
Muitas se disfarçam em perucas, lenços das mais variadas cores e estampas e com as mais variadas amarrações, pinturas em hena, chapéus, turbantes, etc... Disfarces que nada disfarçam apenas escancaram as fases que estamos vivenciando dia após dia.
É como se de um momento para outro, fossemos obrigados a nos enfileirar em uma esteira escura que nos conduz para dentro de um maquinário surreal e gigantesco, de onde saímos como se fossemos seres reduzidos a traços e características que, compulsoriamente, devem ser preenchidas. Seres alopecicos, de baixa imunidade, seres pós-apocalípticos, amputados, infiltrados com substancias químicos de uma agressividade absurda e radiações.
Será o câncer uma espécie de útero disforme e degenerado que nos pare como se fossemos todos meio que mórbidos gêmeos uníssonos em características fenotípicas? Ou seria por partenogênese? Ou seria o atraso tecnológico de uma sociedade arrogante que nos faz escravos disso? Será que realmente há esse atraso? A quem realmente interessa que nos submetamos a demorados e doloridos e caros tratamentos com as mais variadas drogas farmacológicas? Esses coquetéis de terror espumando sintomas que de dor e sofrer?
E as pessoas nos olham com pesar, com pena.. outros com indiferença... outros com medo, outros nos vendo como peças castigadas no tabuleiro de Deus, meros peões pagando por dívidas fruto de moratórias e anatocismos, outros vendo-nos como pobres seres que não sabem perdoar e só sabem guardar mágoa e ressentimento, outros como seres inferiores, pobres coitados, a escória da sociedade. É fato: todos nos olham assim meio de viés e evitando tocar no assunto e/ou se inteirarem porque deixando o assunto a margem crê-se fora do perigo e do grupo de risco. Sim, meus amigos, a pessoas evitam o leve pousar de seus olhos em nós.
...Estigma... sim.
Somos a face crua e nua do estigma.
Carregamos as cicatrizes não apenas da amputação (que medicina evoluída o ser humano tão prepotente conseguiu alcançar, não?), mas cicatrizes na alma (só nós sabemos dos infernos diários que somos obrigadas a passar e resistir). Estampamos no rosto a marca, o sinal. Ora, na própria Medicina estigma é indício de uma patologia (doença).
Fomos marcadas com ferro quente nos lombos, nas veias que recebem a QT provocando dentro de nossas células o maior de todos os holocaustos, sem dó, sem piedade, sem racionalidade, sem ponderação, sem lucidez, sem meio termo, sem equilíbrio, exterminando o melhor de nós na tentativa de destruir pequenas concentrações celulares cancerígenas.
Ah... não esqueçamos que assim como as vítimas do Holocausto eram identificadas por triângulos costurados em suas roupas com cores específicas, por ‘tara' dessa nossa sociedade que é PhD em fracionar, fragmentar, tipificar, classificar, estigmatizar, tachar, colocam em nós ‘lacinhos’ com as mais variadas cores e seus diversos significados. Eufemismo tosco e barato"



















sábado, 14 de novembro de 2015

Informações sobre a radioterapia


Meninas,

Quando começamos a fazer a radioterapia, algumas mulheres falam que nosso peito vai ficar todo queimado, principalmente no final. É verdade. Mas, depende, se você usar apenas o creme Nívea, que os radiologistas indicam, com certeza ficarão mesmo com o peito, ou qualquer outra parte do corpo, que estiver sobre radiação, de fato, com bolhas e queimaduras. O que os radiologistas não informam é que existem maneiras de minimizar e muito esses efeitos. Alguns médicos, mais sensíveis e sabendo dessas reações receitam o creme Cicaplast da La Roche Posay. Usando esse creme, desde o início, o local ficará apenas vermelho ou um pouco mais escuro. Vocês não terão queimaduras, nem bolhas. 

Meninas eu não passei pela experiência difícil, às vezes, quase insuportável da quimioterapia. Esse é o espaço para vocês partilharem.

Beijos no coração
Iracema





sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O Primeiro Impacto (Parte I)




Enviei esta carta aos meus funcionários, na escola em que sou diretora, logo que soube da doença. Chamo de primeiro impacto, pois foi a primeira vez que falei sobre esse assunto. Ainda vou postar a parte II do Primeiro Impacto, e nessa parte falarei como foi o tratamento.

Queridos amigos,



         Deus, esse ano me proporcionou grandes momentos de alegria. O contato com todos vocês de uma maneira mais afetiva, não como chefia, mas como pessoas que querem fazer de seu ambiente de trabalho, o melhor possível, isto é, humano. Devo dizer que tudo isso se deu depois de um longo caminho trilhado, que não foi fácil, mas foi cheio de aprendizagem, houveram aqueles, também, que não quiseram, por escolha própria, participar dessa caminhada. Também vieram vários Congressos, em que foi possível conhecer pessoas incríveis, que hoje estão presentes em minha vida, e mais, meu amado marido, finalmente, conseguiu compreender a minha afinidade e amor pela literatura.


         Por quê faço essa introdução? Para contar o que me aconteceu nas últimas semanas. Fui a minha ginecologista, como me é de costume. Fiz todos os exames anuais, incluindo a mamografia e ultrassonografia de mama. Ao levar para minha médica, ela disse não ter gostado do resultado e me pediu exames mais detalhados e a partir deles fiz uma biópsia. O resultado foi um câncer de mama, mais especificamente um “carcinoma ducal invasivo grau II”, o que significa?   Um tumor agressivo, diferenciado dos demais, que se não tivesse sido detectado a tempo colocaria minha vida em risco. Devo dizer, que esse tumor jamais apareceu em nenhum exame anterior, ou percebido pela minha médica que é mastologista (portanto especialista em prevenção). Se foi um susto? Claro, para mim e para minha médica, ninguém espera por isso. Já fiz todos os exames pré-operatórios, que foram num total de 26, todos muito detalhados para garantir o máximo de segurança na cirurgia. Daqui a dez dias farei   uma mastectomia no seio direito (é preciso tirar tudo), na cirurgia saberão se o problema está espalhado pelas axilas, se estiver, vão retirar um linfonodo sentinela. Na cirurgia estarão presentes duas mastologistas, um oncologista, um patologista e um cirurgião plástico, este último colocará uma prótese. É quase certo que farei quimioterapia e perderei os cabelos (isso é de menos), uso uma peruca. A única coisa que quero é me ver livre dessa doença.  


         Nunca tivemos casos de câncer em nossa família, portanto não é genético, por que veio... não sei. Só sei que Deus permitiu que fosse descoberto no começo e que eu estivesse bem para fazer todos os exames sem estar debilitada.


         Vou ficar bastante tempo afastada, segundo minha médica até o final do ano. Quanto ao mestrado continuarei a fazê-lo, mesmo sabendo que posso prorrogar a bolsa, mas não quero parar, quero me ocupar durante esse período.  Já conversei com minha orientadora e vamos continuar, às vezes pessoalmente, e na maioria das vezes por e-mail ou skype.


          Nós nunca pensamos que um problema desses vá cair sobre a nossa cabeça e quando cai, vai depender da estrutura que temos para enfrentá-lo. Tenho muita fé em Deus e Ele me ajudará a passar por tudo isso com paz no coração. Minha família e meus amigos estão inteiramente do meu lado. Devo confessar-lhes que em nenhum momento me senti só, Deus está comigo o tempo todo. Também não questionei por que eu? Ora, tantas pessoas passam por isso e eu não sou melhor do que ninguém, sou igual. Meus filhos e meu marido estão assustados, claro, é natural. Minha mãe ainda não sabe e tenho que ter muita sabedoria para contar em doses homeopáticas.
         É sempre muito inquietante estar sob a mira de uma doença. O que entendo, antes de mais nada, é que Deus está dizendo o quanto é urgente tudo o quanto devemos nos empenhar nas coisas em que acreditamos e as quais amamos, o quanto devemos viver intensamente cada pequeno segundo dando de nós o melhor. Mas isso é um aviso geral que Deus sempre nos passa, e nós, um tanto desatentos, vamos entendendo à medida em que somos tocados pela sua abrangência. O que estou querendo dizer é que estou à beira de começar uma batalha danada e que tenho todo o pique para tal, porque a força que tenho não vem de mim e sim de um Deus a quem sou totalmente dependente. Claro que isso implica em um caminho diferente do que, até então , havia trilhado, mas também implica um novo conhecimento sobre meu espírito, sobre essa alma que a gente tem e que se esconde tão profundamente dentro de nós e que só nos permite conhecê-la em momentos assim de pico, de gravidade, de imanência, para comungarmos com o Divino e ao nos aproximarmos Dele nos tornarmos verdadeiramente íntegros, inteiros.
         Não que isso seja uma felicidade, mas é um dos muitos caminhos que a vida nos apresenta, o mais difícil, o mais doloroso, mas também o que nos dá maior domínio sobre nós mesmos e que nos obriga a ocuparmo-nos com o pensamento de como devemos reagir, ou de como devemos nos preparar para reagir – e esse é um tempo de retiro profundo da nossa alma com Deus.
         Meus amigos, assim quero chamá-los, sem mais “Sra.” “ Dona”, isso sempre me incomodou, porque afasta as pessoas, não deixa espaço para a intimidade e o carinho que queremos dar de graça.  O que quero dizer é que cada um de nós é um viveiro de pensamentos, de reflexões, de crises e de desencontros, e o que nos diferencia um do outro é apenas a data em que saberemos o que se passa dentro de nós. A minha contingência chegou neste momento, e ela é bem-vinda, porque tenho muita fé e força vindas de Deus. O Senhor me fez descobrir a tempo de poder combater o que maltrata meu corpo. É uma contenda que tenho que travar com essa adversidade, e já estou me nutrindo de toda a força e sabedoria e certeza da cura! Sei que este entendimento é fundamental para que a melhora ocorra e para emitir os sinais certos para o meu corpo, que está lidando na mais pura proximidade com esse mal, a ponto de que eu inteira, completa, e perfeitamente em comunhão com Deus possa vencê-lo.
         Nós não nascemos para ser herói ou heroína, e nesses termos então ninguém o escolheu ser. Mas tenho algo maior, algo que suplanta todo o entendimento do ser humano, tenho a força Divina, esse Deus que está o tempo todo ao nosso lado “ direita ou esquerda, eu sou protegido” e que, muitas vezes, não o enxergamos. Sei que existirão bons e maus momentos e isso faz parte do processo de cura, mas não estarei só.
         Se passo tudo isso a vocês é para que possamos nos confraternizar a fim de que possamos construir, elo a elo, uma corrente vigorosa de amor e carinho e de apoio uns aos outros. Tenho muita fé que vou sair dessa mais forte do que entrei.
         Sinto muita paz no meu coração e vontade de partilhar o conforto que Deus me dá nessa hora com todos. Agradeço a Deus por ter permitido esse tempo de proximidade com ele e tudo farei para que todas as pessoas que conheço compartilhem desse amor tão grande que vem, da fé, e da certeza, que nosso Pai Celestial sempre nos carrega no colo.
         Não sou a única a passar por esses momentos, a Adriana, a Fernanda, a Tania, a Fátima, a Aparecida, todas estão passando por dificuldades. Vejam como somos parecidas, como esse momento chega para todos, com maior ou menor intensidade.         Por isso reafirmo, se tivermos verdadeiramente Deus como nosso consolador, nosso protetor, Ele não nos deixará um só momento, porque Ele é um Pai que jamais abandona seus filhos, precisamos ter a certeza absoluta que Ele nos ama tanto, que enviou seu filho amado Jesus Cristo para nos livrar de todo o mal. Deixo aqui o refrão do louvor “Fidelidade” que tem sido o meu Norte e me fortalece a cada dia.

“Senhor / não vou dividir minha adoração,
Exclusivo é / o meu coração.
 Vivo só pra ti / não abro mão do céu,
 Mesmo diante da morte / prefiro ser fiel”

“Ele envia anjos para me guardar”

Um beijo a todas
Nos veremos em breve!
Iracema
Junho/2015



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Rústica

Ser a moça mais linda do povoado. 
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho, 
Ver descer sobre o ninho aconchegado 
A bênção do Senhor em cada filho. 

Um vestido de chita bem lavado, 
Cheirando a alfazema e a tomilho... 
- Com o luar matar a sede ao gado, 
Dar às pombas o sol num grão de milho... 

Ser pura como a água da cisterna, 
Ter confiança numa vida eterna 
Quando descer à "terra da verdade"... 

Deus, dai-me esta calma, esta pobreza! 
Dou por elas meu trono de Princesa, 
E todos os meus Reinos de Ansiedade. 

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"