“Tem dias que a gente se sente como
quem partiu ou morreu (...) A gente quer ter voz ativa e quer no destino
mandar, mas eis que chega a roda viva e carrega este mundo pra lá (...)”.
(Trecho tirado da música Roda Viva do
Chico Buarque)
O
fogo foi chegando e aniquilando tudo o que estava a sua frente. As primeiras a
serem queimadas vivas foram às pequenas e frágeis vegetações rasteiras. Elas
não tinham para onde fugir e ninguém para salvá-las, pelo contrário, tinha o
vento forte que parecia ter feito um pacto com o fogo, porque por todos os
lados só víamos o fogo crescendo alto e com uma rapidez impressionante. O fogo
encontrava uma árvore aqui ou acolá, mesmo assim como um matador implacável,
primeiro atingia suas folhas e depois ia tomando conta de todo tronco, antes
verde e cheio de vida, agora apenas uma sombra triste do que fora. O barulho
era estridente, como se estivesse atingindo todos nós que presenciávamos aquela
tragédia, impotentes diante de tantas chamas e de tanta fumaça. Alguns de nós
até tentamos nos aproximar, para talvez jogar um pouco de água, mas o cenário
era assustador. Por todos os lados as plantas agonizavam. Estávamos atônitos.
Como tanta vida em um instante podia ter sido arrasada por uma avalanche dessa?
Como aconteceu? De onde tinha partido tudo aquilo? Era apenas mais um sábado
tranqüilo de sol e nos pegou completamente desatentos.
Um
pintor veio correndo para saber o que acontecera, disse que seu trabalho tinha
sido todo estragado pela fuligem. Um dia inteiro de trabalho para nada. Teria
que lavar toda a parede e começar tudo de novo. Trabalho em dobro, tudo por
culpa do fogo.
De
repente olhei ao meu redor e vi uma multidão de desconhecidos, todos do mesmo
bairro conversando e falando da calamidade. Culpavam o dono do terreno por
negligência, que ele nunca aparecia por lá, que era um inconseqüente, porque o
fogo poderia atingir as casas vizinhas.
Os
bombeiros chegaram e sem conversar com ninguém se equiparam, pularam a cerca e
começaram a fazer seu trabalho o mais rápido que podiam. Levavam consigo uma
espécie de vassoura grande com cerdas de borracha e sem receio algum começaram
a batalha contra o fogo.
Eu
estava entre os que observavam tudo e pude ver as chamas destruindo uma
palmeira que, imponente teimava em continuar ali em pé. No momento, tive à
impressão que era uma pessoa amarrada a um poste, inocente, sendo queimada
viva, porque não concordava com todo aquele horror. Calada, sem dar um grito de
dor a palmeira foi sendo sucumbida pelo fogo. Digna, permaneceu em pé.
Foi
só nesse momento que me dei conta que havia uma placa enorme com o aviso
“Proibido a entrada, propriedade particular”. A placa continuava ali como se
pudesse conter alguma coisa. Depois fiquei pensando “Proibido a entrada”, pela
gramática seria “Proibida a entrada”, mas isso não faz a menor diferença.
Queria mesmo saber sobre o que era a proibição, de animais, pessoas estranhas,
do sol, da chuva, do vento, da dor? Existe um controle sobre isso?
A
primeira a invadir aquele espaço foi à vida com suas plantas de vários tipos e
tamanhos. Mas o que assistimos naquele sábado foi à entrada covarde do fogo que
sem pedir permissão, como um “serial killer” foi matando a queima roupa o que
via pela frente. Dia triste, dia de trauma para todos nós que vimos àquela
tragédia sem poder fazer nada para impedir.
Missão
cumprida, os bombeiros foram embora, deixando só as cinzas. Ficou a saudade
daquela vegetação tão linda e jovem que ainda tinha tanta vida e beleza para
alegrar nossos olhos.
Iracema
Goor Xavier
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