sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O Primeiro Impacto (Parte I)




Enviei esta carta aos meus funcionários, na escola em que sou diretora, logo que soube da doença. Chamo de primeiro impacto, pois foi a primeira vez que falei sobre esse assunto. Ainda vou postar a parte II do Primeiro Impacto, e nessa parte falarei como foi o tratamento.

Queridos amigos,



         Deus, esse ano me proporcionou grandes momentos de alegria. O contato com todos vocês de uma maneira mais afetiva, não como chefia, mas como pessoas que querem fazer de seu ambiente de trabalho, o melhor possível, isto é, humano. Devo dizer que tudo isso se deu depois de um longo caminho trilhado, que não foi fácil, mas foi cheio de aprendizagem, houveram aqueles, também, que não quiseram, por escolha própria, participar dessa caminhada. Também vieram vários Congressos, em que foi possível conhecer pessoas incríveis, que hoje estão presentes em minha vida, e mais, meu amado marido, finalmente, conseguiu compreender a minha afinidade e amor pela literatura.


         Por quê faço essa introdução? Para contar o que me aconteceu nas últimas semanas. Fui a minha ginecologista, como me é de costume. Fiz todos os exames anuais, incluindo a mamografia e ultrassonografia de mama. Ao levar para minha médica, ela disse não ter gostado do resultado e me pediu exames mais detalhados e a partir deles fiz uma biópsia. O resultado foi um câncer de mama, mais especificamente um “carcinoma ducal invasivo grau II”, o que significa?   Um tumor agressivo, diferenciado dos demais, que se não tivesse sido detectado a tempo colocaria minha vida em risco. Devo dizer, que esse tumor jamais apareceu em nenhum exame anterior, ou percebido pela minha médica que é mastologista (portanto especialista em prevenção). Se foi um susto? Claro, para mim e para minha médica, ninguém espera por isso. Já fiz todos os exames pré-operatórios, que foram num total de 26, todos muito detalhados para garantir o máximo de segurança na cirurgia. Daqui a dez dias farei   uma mastectomia no seio direito (é preciso tirar tudo), na cirurgia saberão se o problema está espalhado pelas axilas, se estiver, vão retirar um linfonodo sentinela. Na cirurgia estarão presentes duas mastologistas, um oncologista, um patologista e um cirurgião plástico, este último colocará uma prótese. É quase certo que farei quimioterapia e perderei os cabelos (isso é de menos), uso uma peruca. A única coisa que quero é me ver livre dessa doença.  


         Nunca tivemos casos de câncer em nossa família, portanto não é genético, por que veio... não sei. Só sei que Deus permitiu que fosse descoberto no começo e que eu estivesse bem para fazer todos os exames sem estar debilitada.


         Vou ficar bastante tempo afastada, segundo minha médica até o final do ano. Quanto ao mestrado continuarei a fazê-lo, mesmo sabendo que posso prorrogar a bolsa, mas não quero parar, quero me ocupar durante esse período.  Já conversei com minha orientadora e vamos continuar, às vezes pessoalmente, e na maioria das vezes por e-mail ou skype.


          Nós nunca pensamos que um problema desses vá cair sobre a nossa cabeça e quando cai, vai depender da estrutura que temos para enfrentá-lo. Tenho muita fé em Deus e Ele me ajudará a passar por tudo isso com paz no coração. Minha família e meus amigos estão inteiramente do meu lado. Devo confessar-lhes que em nenhum momento me senti só, Deus está comigo o tempo todo. Também não questionei por que eu? Ora, tantas pessoas passam por isso e eu não sou melhor do que ninguém, sou igual. Meus filhos e meu marido estão assustados, claro, é natural. Minha mãe ainda não sabe e tenho que ter muita sabedoria para contar em doses homeopáticas.
         É sempre muito inquietante estar sob a mira de uma doença. O que entendo, antes de mais nada, é que Deus está dizendo o quanto é urgente tudo o quanto devemos nos empenhar nas coisas em que acreditamos e as quais amamos, o quanto devemos viver intensamente cada pequeno segundo dando de nós o melhor. Mas isso é um aviso geral que Deus sempre nos passa, e nós, um tanto desatentos, vamos entendendo à medida em que somos tocados pela sua abrangência. O que estou querendo dizer é que estou à beira de começar uma batalha danada e que tenho todo o pique para tal, porque a força que tenho não vem de mim e sim de um Deus a quem sou totalmente dependente. Claro que isso implica em um caminho diferente do que, até então , havia trilhado, mas também implica um novo conhecimento sobre meu espírito, sobre essa alma que a gente tem e que se esconde tão profundamente dentro de nós e que só nos permite conhecê-la em momentos assim de pico, de gravidade, de imanência, para comungarmos com o Divino e ao nos aproximarmos Dele nos tornarmos verdadeiramente íntegros, inteiros.
         Não que isso seja uma felicidade, mas é um dos muitos caminhos que a vida nos apresenta, o mais difícil, o mais doloroso, mas também o que nos dá maior domínio sobre nós mesmos e que nos obriga a ocuparmo-nos com o pensamento de como devemos reagir, ou de como devemos nos preparar para reagir – e esse é um tempo de retiro profundo da nossa alma com Deus.
         Meus amigos, assim quero chamá-los, sem mais “Sra.” “ Dona”, isso sempre me incomodou, porque afasta as pessoas, não deixa espaço para a intimidade e o carinho que queremos dar de graça.  O que quero dizer é que cada um de nós é um viveiro de pensamentos, de reflexões, de crises e de desencontros, e o que nos diferencia um do outro é apenas a data em que saberemos o que se passa dentro de nós. A minha contingência chegou neste momento, e ela é bem-vinda, porque tenho muita fé e força vindas de Deus. O Senhor me fez descobrir a tempo de poder combater o que maltrata meu corpo. É uma contenda que tenho que travar com essa adversidade, e já estou me nutrindo de toda a força e sabedoria e certeza da cura! Sei que este entendimento é fundamental para que a melhora ocorra e para emitir os sinais certos para o meu corpo, que está lidando na mais pura proximidade com esse mal, a ponto de que eu inteira, completa, e perfeitamente em comunhão com Deus possa vencê-lo.
         Nós não nascemos para ser herói ou heroína, e nesses termos então ninguém o escolheu ser. Mas tenho algo maior, algo que suplanta todo o entendimento do ser humano, tenho a força Divina, esse Deus que está o tempo todo ao nosso lado “ direita ou esquerda, eu sou protegido” e que, muitas vezes, não o enxergamos. Sei que existirão bons e maus momentos e isso faz parte do processo de cura, mas não estarei só.
         Se passo tudo isso a vocês é para que possamos nos confraternizar a fim de que possamos construir, elo a elo, uma corrente vigorosa de amor e carinho e de apoio uns aos outros. Tenho muita fé que vou sair dessa mais forte do que entrei.
         Sinto muita paz no meu coração e vontade de partilhar o conforto que Deus me dá nessa hora com todos. Agradeço a Deus por ter permitido esse tempo de proximidade com ele e tudo farei para que todas as pessoas que conheço compartilhem desse amor tão grande que vem, da fé, e da certeza, que nosso Pai Celestial sempre nos carrega no colo.
         Não sou a única a passar por esses momentos, a Adriana, a Fernanda, a Tania, a Fátima, a Aparecida, todas estão passando por dificuldades. Vejam como somos parecidas, como esse momento chega para todos, com maior ou menor intensidade.         Por isso reafirmo, se tivermos verdadeiramente Deus como nosso consolador, nosso protetor, Ele não nos deixará um só momento, porque Ele é um Pai que jamais abandona seus filhos, precisamos ter a certeza absoluta que Ele nos ama tanto, que enviou seu filho amado Jesus Cristo para nos livrar de todo o mal. Deixo aqui o refrão do louvor “Fidelidade” que tem sido o meu Norte e me fortalece a cada dia.

“Senhor / não vou dividir minha adoração,
Exclusivo é / o meu coração.
 Vivo só pra ti / não abro mão do céu,
 Mesmo diante da morte / prefiro ser fiel”

“Ele envia anjos para me guardar”

Um beijo a todas
Nos veremos em breve!
Iracema
Junho/2015



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