"Abrem-se
as cortinas! O Palco está dividido em dois cenários. De um lado o quadro
fantasmagórico, assustador e inaceitável do monstruoso sofrimento a que foram
submetidos os judeus e todos os classificados como nocivos aos nazistas. De
outro lado, os pacientes submetidos a QT. Estranheza!!! Estranheza!!!
Perplexidade!!!
Obviamente
que não objetivamos comparar nada e muito menos fazer com que o sofrimento a
que somos submetidos pela QT e a doença seja análogo ou parecido com todo o
Holocausto/terror em que mais de seis milhões de seres humanos foram mortos em
total injustiça e desumanidade.
Entendam,
é só a visão de uma poeta.. um quase delírio.. alegoria insana... poetas são
assim, doem-se não apenas com os espinhos, mas inclusive com o veludo das
pétalas das rosas. Permitam-me esse delírio febril.
Sim. No
limite, nós submetidos à QT e invadidos pelo carcinoma, parecemos habitantes
vindos de alguma outra constelação ou quiçá, dimensão. Desprovidos de pelos,
tom peculiar e característico na pele e tantas outras características. Seres
diferentes obedecendo a uma espécie de padrão imposto pela química, pela
radiação, pelos medicamentos, pela reunião de uma série de fatores.
Muitas se
disfarçam em perucas, lenços das mais variadas cores e estampas e com as mais
variadas amarrações, pinturas em hena, chapéus, turbantes, etc... Disfarces que
nada disfarçam apenas escancaram as fases que estamos vivenciando dia após dia.
É como se
de um momento para outro, fossemos obrigados a nos enfileirar em uma esteira escura
que nos conduz para dentro de um maquinário surreal e gigantesco, de onde
saímos como se fossemos seres reduzidos a traços e características que,
compulsoriamente, devem ser preenchidas. Seres alopecicos, de baixa imunidade,
seres pós-apocalípticos, amputados, infiltrados com substancias químicos de uma
agressividade absurda e radiações.
Será o
câncer uma espécie de útero disforme e degenerado que nos pare como se fossemos
todos meio que mórbidos gêmeos uníssonos em características fenotípicas? Ou
seria por partenogênese? Ou seria o atraso tecnológico de uma sociedade
arrogante que nos faz escravos disso? Será que realmente há esse atraso? A quem
realmente interessa que nos submetamos a demorados e doloridos e caros
tratamentos com as mais variadas drogas farmacológicas? Esses coquetéis de
terror espumando sintomas que de dor e sofrer?
E as
pessoas nos olham com pesar, com pena.. outros com indiferença... outros com
medo, outros nos vendo como peças castigadas no tabuleiro de Deus, meros peões
pagando por dívidas fruto de moratórias e anatocismos, outros vendo-nos como
pobres seres que não sabem perdoar e só sabem guardar mágoa e ressentimento,
outros como seres inferiores, pobres coitados, a escória da sociedade. É fato:
todos nos olham assim meio de viés e evitando tocar no assunto e/ou se
inteirarem porque deixando o assunto a margem crê-se fora do perigo e do grupo
de risco. Sim, meus amigos, a pessoas evitam o leve pousar de seus olhos em
nós.
...Estigma...
sim.
Somos a
face crua e nua do estigma.
Carregamos
as cicatrizes não apenas da amputação (que medicina evoluída o ser humano tão
prepotente conseguiu alcançar, não?), mas cicatrizes na alma (só nós sabemos
dos infernos diários que somos obrigadas a passar e resistir). Estampamos no
rosto a marca, o sinal. Ora, na própria Medicina estigma é indício de uma
patologia (doença).
Fomos
marcadas com ferro quente nos lombos, nas veias que recebem a QT provocando
dentro de nossas células o maior de todos os holocaustos, sem dó, sem piedade,
sem racionalidade, sem ponderação, sem lucidez, sem meio termo, sem equilíbrio,
exterminando o melhor de nós na tentativa de destruir pequenas concentrações
celulares cancerígenas.
Ah... não
esqueçamos que assim como as vítimas do Holocausto eram identificadas por
triângulos costurados em suas roupas com cores específicas, por ‘tara' dessa
nossa sociedade que é PhD em fracionar, fragmentar, tipificar, classificar,
estigmatizar, tachar, colocam em nós ‘lacinhos’ com as mais variadas cores e
seus diversos significados. Eufemismo tosco e barato"
"Abrem-se
as cortinas! O Palco está dividido em dois cenários. De um lado o quadro
fantasmagórico, assustador e inaceitável do monstruoso sofrimento a que foram
submetidos os judeus e todos os classificados como nocivos aos nazistas. De
outro lado, os pacientes submetidos a QT. Estranheza!!! Estranheza!!!
Perplexidade!!!
Obviamente
que não objetivamos comparar nada e muito menos fazer com que o sofrimento a
que somos submetidos pela QT e a doença seja análogo ou parecido com todo o
Holocausto/terror em que mais de seis milhões de seres humanos foram mortos em
total injustiça e desumanidade.
Entendam,
é só a visão de uma poeta.. um quase delírio.. alegoria insana... poetas são
assim, doem-se não apenas com os espinhos, mas inclusive com o veludo das
pétalas das rosas. Permitam-me esse delírio febril.
Sim. No
limite, nós submetidos à QT e invadidos pelo carcinoma, parecemos habitantes
vindos de alguma outra constelação ou quiçá, dimensão. Desprovidos de pelos,
tom peculiar e característico na pele e tantas outras características. Seres
diferentes obedecendo a uma espécie de padrão imposto pela química, pela
radiação, pelos medicamentos, pela reunião de uma série de fatores.
Muitas se
disfarçam em perucas, lenços das mais variadas cores e estampas e com as mais
variadas amarrações, pinturas em hena, chapéus, turbantes, etc... Disfarces que
nada disfarçam apenas escancaram as fases que estamos vivenciando dia após dia.
É como se
de um momento para outro, fossemos obrigados a nos enfileirar em uma esteira escura
que nos conduz para dentro de um maquinário surreal e gigantesco, de onde
saímos como se fossemos seres reduzidos a traços e características que,
compulsoriamente, devem ser preenchidas. Seres alopecicos, de baixa imunidade,
seres pós-apocalípticos, amputados, infiltrados com substancias químicos de uma
agressividade absurda e radiações.
Será o
câncer uma espécie de útero disforme e degenerado que nos pare como se fossemos
todos meio que mórbidos gêmeos uníssonos em características fenotípicas? Ou
seria por partenogênese? Ou seria o atraso tecnológico de uma sociedade
arrogante que nos faz escravos disso? Será que realmente há esse atraso? A quem
realmente interessa que nos submetamos a demorados e doloridos e caros
tratamentos com as mais variadas drogas farmacológicas? Esses coquetéis de
terror espumando sintomas que de dor e sofrer?
E as
pessoas nos olham com pesar, com pena.. outros com indiferença... outros com
medo, outros nos vendo como peças castigadas no tabuleiro de Deus, meros peões
pagando por dívidas fruto de moratórias e anatocismos, outros vendo-nos como
pobres seres que não sabem perdoar e só sabem guardar mágoa e ressentimento,
outros como seres inferiores, pobres coitados, a escória da sociedade. É fato:
todos nos olham assim meio de viés e evitando tocar no assunto e/ou se
inteirarem porque deixando o assunto a margem crê-se fora do perigo e do grupo
de risco. Sim, meus amigos, a pessoas evitam o leve pousar de seus olhos em
nós.
...Estigma...
sim.
Somos a
face crua e nua do estigma.
Carregamos
as cicatrizes não apenas da amputação (que medicina evoluída o ser humano tão
prepotente conseguiu alcançar, não?), mas cicatrizes na alma (só nós sabemos
dos infernos diários que somos obrigadas a passar e resistir). Estampamos no
rosto a marca, o sinal. Ora, na própria Medicina estigma é indício de uma
patologia (doença).
Fomos
marcadas com ferro quente nos lombos, nas veias que recebem a QT provocando
dentro de nossas células o maior de todos os holocaustos, sem dó, sem piedade,
sem racionalidade, sem ponderação, sem lucidez, sem meio termo, sem equilíbrio,
exterminando o melhor de nós na tentativa de destruir pequenas concentrações
celulares cancerígenas.
Ah... não
esqueçamos que assim como as vítimas do Holocausto eram identificadas por
triângulos costurados em suas roupas com cores específicas, por ‘tara' dessa
nossa sociedade que é PhD em fracionar, fragmentar, tipificar, classificar,
estigmatizar, tachar, colocam em nós ‘lacinhos’ com as mais variadas cores e
seus diversos significados. Eufemismo tosco e barato"
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