segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O Holocausto está em nós ( autora Dra. Lillia Mirella da Silva Bonato)



"Abrem-se as cortinas! O Palco está dividido em dois cenários. De um lado o quadro fantasmagórico, assustador e inaceitável do monstruoso sofrimento a que foram submetidos os judeus e todos os classificados como nocivos aos nazistas. De outro lado, os pacientes submetidos a QT. Estranheza!!! Estranheza!!! Perplexidade!!!
Obviamente que não objetivamos comparar nada e muito menos fazer com que o sofrimento a que somos submetidos pela QT e a doença seja análogo ou parecido com todo o Holocausto/terror em que mais de seis milhões de seres humanos foram mortos em total injustiça e desumanidade.
Entendam, é só a visão de uma poeta.. um quase delírio.. alegoria insana... poetas são assim, doem-se não apenas com os espinhos, mas inclusive com o veludo das pétalas das rosas. Permitam-me esse delírio febril.
Sim. No limite, nós submetidos à QT e invadidos pelo carcinoma, parecemos habitantes vindos de alguma outra constelação ou quiçá, dimensão. Desprovidos de pelos, tom peculiar e característico na pele e tantas outras características. Seres diferentes obedecendo a uma espécie de padrão imposto pela química, pela radiação, pelos medicamentos, pela reunião de uma série de fatores.
Muitas se disfarçam em perucas, lenços das mais variadas cores e estampas e com as mais variadas amarrações, pinturas em hena, chapéus, turbantes, etc... Disfarces que nada disfarçam apenas escancaram as fases que estamos vivenciando dia após dia.
É como se de um momento para outro, fossemos obrigados a nos enfileirar em uma esteira escura que nos conduz para dentro de um maquinário surreal e gigantesco, de onde saímos como se fossemos seres reduzidos a traços e características que, compulsoriamente, devem ser preenchidas. Seres alopecicos, de baixa imunidade, seres pós-apocalípticos, amputados, infiltrados com substancias químicos de uma agressividade absurda e radiações.
Será o câncer uma espécie de útero disforme e degenerado que nos pare como se fossemos todos meio que mórbidos gêmeos uníssonos em características fenotípicas? Ou seria por partenogênese? Ou seria o atraso tecnológico de uma sociedade arrogante que nos faz escravos disso? Será que realmente há esse atraso? A quem realmente interessa que nos submetamos a demorados e doloridos e caros tratamentos com as mais variadas drogas farmacológicas? Esses coquetéis de terror espumando sintomas que de dor e sofrer?
E as pessoas nos olham com pesar, com pena.. outros com indiferença... outros com medo, outros nos vendo como peças castigadas no tabuleiro de Deus, meros peões pagando por dívidas fruto de moratórias e anatocismos, outros vendo-nos como pobres seres que não sabem perdoar e só sabem guardar mágoa e ressentimento, outros como seres inferiores, pobres coitados, a escória da sociedade. É fato: todos nos olham assim meio de viés e evitando tocar no assunto e/ou se inteirarem porque deixando o assunto a margem crê-se fora do perigo e do grupo de risco. Sim, meus amigos, a pessoas evitam o leve pousar de seus olhos em nós.
...Estigma... sim.
Somos a face crua e nua do estigma.
Carregamos as cicatrizes não apenas da amputação (que medicina evoluída o ser humano tão prepotente conseguiu alcançar, não?), mas cicatrizes na alma (só nós sabemos dos infernos diários que somos obrigadas a passar e resistir). Estampamos no rosto a marca, o sinal. Ora, na própria Medicina estigma é indício de uma patologia (doença).
Fomos marcadas com ferro quente nos lombos, nas veias que recebem a QT provocando dentro de nossas células o maior de todos os holocaustos, sem dó, sem piedade, sem racionalidade, sem ponderação, sem lucidez, sem meio termo, sem equilíbrio, exterminando o melhor de nós na tentativa de destruir pequenas concentrações celulares cancerígenas.
Ah... não esqueçamos que assim como as vítimas do Holocausto eram identificadas por triângulos costurados em suas roupas com cores específicas, por ‘tara' dessa nossa sociedade que é PhD em fracionar, fragmentar, tipificar, classificar, estigmatizar, tachar, colocam em nós ‘lacinhos’ com as mais variadas cores e seus diversos significados. Eufemismo tosco e barato"



















Nenhum comentário:

Postar um comentário