Quando entrou no quarto
e viu aquela boneca seus olhos brilharam. Ela tinha um rosto que lembrava uns
pratos decorados, mas não era bem isso, tinha brilho nas maçãs do rosto. A
boquinha parecia um coração bem vermelhinho e os olhos! Ah! Os olhos! Eram
azuis como o céu, pareciam de verdade. Os cabelos eram dourados e cacheados e
muito compridos. Ela poderia fazer lindas tranças por horas a fio, sem parar. O
vestido era magnífico, cheio de rendas brancas de um pano bem fininho e todo
bordado. Não, não era uma boneca! Era uma pequena fada. Ela jamais tinha visto
algo igual. De repente ...
-
Ana, vamos. O que você está fazendo aqui neste quarto?
-
Ah! Mamãe só estava vendo aquela boneca, aquela fadinha.
-
Deixa disso menina. Desculpa Dna Quitéria. Essas crianças!
Vamos, vamos. Você não devia ter entrado aqui.
-
Não tem problema – diz Dona Quitéria- deixa a menina. Vamos pode pegar a boneca.
Os olhos de
Ana brilhavam tanto, que parecia que havia luz dentro deles. Olhou para a mãe e
viu reprovação em seus olhos. Então segurou a emoção e baixou os olhos.
Obedeceu. Nesse instante, rolou uma pequena lágrima pelo seu rosto. Retiraram-se do quarto mãe e filha.
Ao chegar em
casa Ana foi direto para cama. Não quis jantar. Começou a sentir o corpo quente
e o suor a descer pelo seu rosto. Começou a sonhar com sua amiguinha, muito
loura e de olhos azuis. Elas corriam pelo campo e próximo a um riacho pararam
para descansar. Jogavam pétalas de rosas na água e, de vez em quando, molhavam
o pezinho na água muito fresca. Sem perceberem, a correnteza levou o sapatinho
de sua amiga. Ana então correu para pegá-lo e sentiu que a água começou a inundar
seu vestido e em seguida inundava todo seu corpo. A água aumentava e tão forte que
o seu corpo começou a ser levado pela correnteza. Sua respiração ficou mais
rápida... mais rápida. Então ouviu sua mãe chamando-a muito longe, depois
sentiu uma mão lhe puxando o braço.
-
Ana! Ana! Volta!
Ana acordou.
Estava toda ensopada de suor. Sua mãe estava ao seu lado com uma bacia de água
e com um pano úmido, molhava sua testa e seus braços. Ana não entendia o que
havia acontecido e perguntou a sua mãe onde estava sua amiguinha “A fadinha”.
Sua mãe nem deu muita atenção, tal era a preocupação com a menina.
Passaram-se
três dias e três noites e Ana continuava com muita febre e nada comia. Até que
Dona Quitéria foi fazer uma visita e viu a menina ainda febril. Logo pensou na
boneca. E disse:
-
Não será por causa da boneca Dona Amália?
-
Que isso! Dona Quitéria. Isso é bobagem. Imagina uma boneca!
Acho que é da garganta.
-
Mas a senhora não me disse que nem o Doutor Santos, que eu pedi
para ver a menina, sabe o que ela tem?
-
É verdade. Mas... Veja lá
Dona Quitéria não vá se incomodar por causa da menina. A boneca é da sua filha!
-
É.. mas ela já é moça e sua filha só tem 6 aninhos. A Sra não
viu o brilho nos olhos da menina! Acho que ela queria pegar a boneca só um
pouquinho.
-
Não Dona Quitéria, nós somos pobres e pobre não tem dessas
coisas.
-
É Dona Amália, mas o encantamento não escolhe nem rico nem
pobre. Espere um pouco.
Dona Quitéria retirou-se do quarto e, pouco tempo depois
retornou trazendo a boneca e a entregou a pequena Ana. A menina abraçou a
boneca com tanta força que nem percebeu que no pezinho da boneca faltava um
sapatinho...
(Iracema Goor Xavier)

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