terça-feira, 24 de novembro de 2015

Primeiro Impacto continuação (parte II)

Alguém um dia disse que toda palavra escrita ganha -autonomia e perenidade- , não coloquei entre aspas , porque não sei quem disse isso, com certeza não fui eu, mas concordo e por isso, continuo meu relato. Logo depois do primeiro impacto me organizei para a cirurgia.  O convênio colaborou em aprovar todos os exames, que foram saindo com muita rapidez. A participação de minha médica, Dra. Andrea Cubero, foi fundamental para agilizar toda a parte burocrática , além de meu marido, Renê, que quase todos os dias,  saia para resolver mais alguma documentação. Comecei a procurar sites onde vendiam perucas naturais, para escolher algo que se parecesse com meu cabelo. Dessa vez iria usar um cabelo curto. Cheguei a fazer alguns orçamentos, mas deixei para ver isso melhor após a cirurgia. O dia da cirurgia coincidiu com o chá de bebê do meu netinho Miguel. Dia 04 de Julho. Foram muitas idas e vindas até acertar tudo no convênio. Nesse ponto meu marido, Renê, foi fundamental. Ele resolveu tudo e o dia chegou. Estavam presentes meus filhos e meu marido. Fui para a cirurgia ciente do que iria acontecer (mastectomia). Estava bem tranquila, mas  me preocupei quando vi ao meu lado na sala pré-cirurgica, uma mulher, ainda jovem que iria fazer uma lipoaspiração. Ela achava mais fácil do que fazer uma dieta. Só que, era hipertensa e sua pressão não colaborava, não abaixava, perguntou o que eu iria fazer,  e porque estava lá. Eu disse que iria operar o seio "câncer de mama". Naquele momento ela me olhou com muita pena. Eu disse que ia ficar tudo bem. Logo depois fui  levada a sala de cirurgia e fiquei pensando o porquê de algumas pessoas arriscarem a vida , só pela aparência. Enfim, eu não tinha nada com isso.  Dormi, dormi um sono bom. Quando acordei estava na semi UTI com o anestesista do meu lado dizendo que estava tudo bem. Fui para o quarto e percebi que estava toda enfaixada. Senti muita dor, mas já era esperado. Me deram muitos analgésicos para o controle da dor. Foi quando meu marido e meus filhos falaram que a cirurgia tinha sido melhor do que era esperado. Que a grande área que seria retirada não estava contaminada pelo câncer. Era uma inflamação causada pela presença das células cancerígenas e que o meu seio não tinha sido todo retirado. Puderam preservar uma parte, fizeram um quadrante, em resumo, o quadro havia mudado radicalmente. Fiquei muito feliz. Logo fui para casa e minha filha e meu marido ficaram cuidando de mim. Passados os dias mais críticos, com os drenos, que eram bem desagradáveis, mas necessários, voltei a minha médica para saber qual seria o passo seguinte. Ela estava radiante diante do sucesso da cirurgia e me encaminhou para o oncologista, que decidiria se eu iria fazer a quimioterapia. Minha médica me adiantou que provavelmente eu  não precisaria fazer a quimioterapia, pois na cirurgia conseguiram tirar todo o carcinoma invasivo. Tinha que esperar o que o médico  iria decidir. Fomos ao oncologista muito ansiosos, eu, meu marido, meu filho. O Dr. nos explicou o tratamento, que seriam 28 radioterapias e hormonioterapia por cinco anos. A quimioterapia estava descartada, pois como o médico falou; "Seria dar um tiro de canhão em um mosquito minúsculo na parede". Fiquei radiante, Graças a Deus, não teria que fazer a tão temida quimioterapia. Eu já sabia que do tratamento do câncer a pior parte , não seria a cirurgia,  mas a  quimioterapia.  E não é para menos que a Mirella descreve tão bem em seu texto  " O holocausto está em nós" as consequências devastadoras da quimioterapia. Agradeci muito a Deus, pois muitas mulheres não tiveram essa opção. Vejo que a prevenção anual, fez toda a diferença. 
Em setembro comecei a radioterapia e dentro de quase dois meses, pude conviver com mulheres incríveis. Com histórias bem diferentes, umas das outras. Mulheres que tinham o mesmo sentimento, os mesmos receios e as mesmas superações. Em mim foi nascendo um desejo enorme de olhar mais de perto pessoas que sofrem e que precisam de ajuda, de uma escuta. Conheci mulheres que foram abandonadas pelo marido, após saberem que tinham câncer. Bem, por aí se vê, que amor é uma palavra desconhecida para esses homens. Mas, também conheci mulheres, que tiveram em seus maridos e familiares todo apoio para enfrentar essa doença. Aos poucos fui percebendo que precisamos enfrentar tudo que a vida nos apresenta, sempre com esperança. Que o câncer não pode ser maior do que nós. Muitas mulheres precisam de acompanhamento psicológico para enfrentar essa fase, e devem fazê-lo, sem nenhum problema. Afinal, ninguém está preparado para passar por isso. Vi também que algumas mulheres preferem se recolher. Querem ficar quietinhas nesse momento. Também entendo. Mas existem aquelas que precisam compartilhar, conversar, trocar experiências. Acho que me coloco nesse último grupo, além de compartilhar, quero me envolver, ajudar e falar que se isso acontecer, devemos nos jogar nos céus como pipas enamoradas do vento. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário