Tinha decidido que faria Faculdade de Biologia. Gostava do mundo invisível e de ciências. Gostava em
particular de observar as lagartas. Por isso, cuidava delas sempre que
apareciam em seu jardim. Colocava-as num pequeno vidro, já todo apropriado para
isso, e observava a lenta e mágica transformação. Antes um pequeno inseto
rasteiro e até asqueroso para alguns, mas não para ela, porque sabia que era
apenas um estágio temporário. O pequeno inseto ficava ali, passivo, apenas
esperando o dia em que a grande mudança aconteceria. Parecia que tinha uma
sabedoria interior, que ia guardando tudo o que via e ouvia. Ia acumulando toda
a experiência que podia. Em um dia qualquer o casulo começava a aparecer , até
que todo o corpo do inseto ficasse submerso em uma espera sem fim, dava a
impressão que lá dentro não existia mais nenhuma vida. Por fora a cor era
opaca, sem graça, o que reforçava mais ainda a idéia de ausência de vida. Até
que sem ninguém esperar começava a aparecer uma pequenina cabeça e logo em
seguida cores e mais cores submergiam daquele casulo sem importância. Aos
poucos aquelas lindas cores se transformavam em asas. Asas para a liberdade. E
ela ia embora , linda a bailar pelo ar. Não olhava para trás, e ia pousar na
primeira flor que encontrava. Esse era seu ritual, observar a natureza no que
ela considerava de mais belo.
Um dia ao ver aquelas cores partirem sentiu vontade de segui-la,
mas em pouco tempo, por um minuto de
distração a perdeu de vista. Sentiu-se então triste e melancólica, porque
procurou e não a encontrou mais.
Voltou, pegou um outro vidro para começar tudo de novo, mas
dessa vez sentiu medo. Medo de todo o processo.
Desistiu de fazer biologia.

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