domingo, 29 de novembro de 2015

Memórias de uma carteirinha escolar


Nasci para ser importante. Primeiro me deram a cor azul (que eu adoro!), depois fiquei sabendo que ganharia uma roupinha linda, toda em plástico transparente. No princípio, eu não sabia por que iria precisar de uma roupinha, mas ouvi dizer que era para proteger, não rasgar, não molhar.  Mas o que vocês não sabem é que eu iria ganhar um nome de uma criança.  No início pensei que seria a única, mas me contaram que tinha uma porção de meninos e meninas e por isso precisariam de mais carteirinhas. Ufa! Eu não daria conta de tantas crianças e também era bom saber que ganharia outras amiguinhas.
Então chegou o grande dia, o dia em que ganharia um nome, mas não era um nome qualquer. Era o nome da minha criança. E eu carregaria também o nome da mamãe, do papai, da professora e de todas as pessoas que levariam minha criança para casa.
Fiquei muito empolgada, afinal se eu não estivesse presente a criança não poderia ir para casa. Então chegou o dia que eu seria entregue a minha família. A Diretora fez um discurso bonito para os pais e disse que eu era muito importante. E eu sei que sou!
Fui para a casa de minha nova família. Adorei! Fui tratada com muito respeito e carinho. Fui colocada em um lugar muito especial e a mamãe disse para a minha criança: “Olha não podemos esquecer a carteirinha, porque sem ela você não vem para casa”. Eu percebi como era importante e todos os dias de manhã e à tarde eu saía de casa e ia até a escola buscar a minha criança, no caminho encontrava outras amiguinhas. Um dia ouvi uma mãe dizer que tinha esquecido sua carteirinha, mas que não tinha problema. Fiquei sem entender.  Achei estranho, porque a minha mãe sempre me levava para a escola para buscar a minha criança. Um dia eu não fui, pensei que era final de semana ou feriado, mas não era, porque a minha criança tinha ido para a escola e eu não estava no meu lugar especial, estava jogada em cima da geladeira... fiquei preocupada, como minha criança voltaria para casa? Depois fiquei sabendo que deram uma tal de autorização e a minha criança veio para casa. Na outra semana eu cai no chão e me varreram para debaixo do sofá, não sei quanto tempo fiquei por lá, eu não podia respirar direito com aquela poeira toda, eu via apenas o pé das pessoas da minha família, tentava chamá-las, mas elas não me escutavam.  Fiquei tão triste que comecei a chorar, acho que fiquei até com depressão e quando a mamãe estava limpando a casa me achou, mesmo assim já não me sentia tão feliz.
Não sei, mas comecei a desconfiar que não era tão importante assim, porque a minha criança ia e voltava da escola e eu ficava esquecida e aquela tal de autorização sempre tomava o meu lugar. Comecei a achar que a minha família não gostava mais de mim, que não se importavam muito comigo. E que eu não era tão importante como a Diretora dizia.  Às vezes a minha criança me achava e me colocava dentro da sua mochila e eu ia para a escola e ficava feliz.
Um dia me esqueceram na janela e naquele dia começou a chover muito, minha roupinha de plástico não suportou tanta água e eu fiquei toda amarrotada. Comecei a sentir um vazio muito grande e tive vontade que o vento me derrubasse para dentro do bueiro e de lá eu não voltaria mais. Afinal, não gostavam mesmo de mim! Foi quando minha criança me viu, me salvou e disse: “Mamãe olha a carteirinha aqui! Tadinha, ela está toda molhada e com frio! Vamos cuidar dela, dar uma nova roupinha e eu quero que ela vá me buscar na escola de novo”.
            Nossa!  Senti tanta felicidade, afinal carrego comigo o nome da minha criança e não vou desistir dela. Eu sei que ela gosta de mim. Não sei quanto tempo vou viver, mas sei que enquanto viver vou cuidar bem da minha criança, como ela cuidou de mim. E sabem de uma coisa? A partir desse dia minha família não me esqueceu mais.
            Logo, logo nós vamos entrar de férias e eu também. Não vou mais para a escola, mas é só por um tempinho. Na volta às aulas eu tenho certeza que também vou voltar todos os dias para buscar a minha criança. E essa tal de autorização não vai mais me substituir.
            E a carteirinha sentiu, que o seu sonho seria realizado, totalmente, na volta às aulas.

Iracema Goor Xavier

     27/07/2011


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