Era uma menininha linda de cabelos cacheados com apenas
dois anos e meio de idade correndo por uma pequena pracinha. Em suas
pequenas mãos carregava alguns pratinhos de aniversário para brincar de casinha,
como dizia ela ao Seu Venceslau.
Colocou os pratinhos no banco da praça e percebeu que eles
voavam como passarinhos. Não entendeu porque não paravam no banco de cimento e
a toda hora caiam no chão. Observou as folhas caírem das árvores e começou
a ouvir um barulho estranho, ao mesmo tempo arrumava seus cachinhos que
teimavam em escorregar pelo seu pequeno rosto. Não teve dúvida, apontou
seu pequeno dedo em riste para o céu e disse: – Vento! Para agora!
Seu Venceslau riu e lhe disse que jamais iria parar o
vento. Ela discordou e mais uma vez disse com mais ênfase: – Vento! Já
disse pra você parar! Tá desarrumando meu cabelo e levando meus
pratinhos embora! Seu Venceslau olhou para a pequenina e pensou que em
seus longos dias de vida nunca tinha pensado em parar o vento. Quem
sabe aquela pequena menininha conseguiria, afinal é só uma questão de
acreditar, e ela acreditava.
No momento seguinte, a pequenina estava olhando para
uma formiguinha, mas o vento forte também a levou junto com a folhinha
que carregava. Seu Venceslau em seu pensamento lembrou de suas mágoas e dores e quase se perdeu no
vento vago da solidão. Sentiu saudade do tempo em que o vento soprava sem o
devorar e sem pedir licença para entrar. Voltou a olhar para a pequenina
tentando encontrar um vento que não varresse de vez o seu ser. E o encanto
aconteceu.
O olhar inocente da criança se encontrou com o olhar já
bem vivido daquele velho. E deram um sorriso que alegrou todo o céu. O vento
parou. A beleza apareceu com seus tons dourados e naquele momento
não se sabia mais onde começava a criança e onde terminava o velho. Suas almas
eram pura alegria. O vento parou, porque reverenciou o encontro daquela
que tinha uma vida inteira para aprender e iluminou com sua alegria aquele que
tinha pouco tempo para viver.
Então o vento cantou:
Fui
vento?
Não
sei.
Não
sei se fui vento, brisa ou tempestade.
Mas
sei que soprei.
Não
sei se soprei de forma branda ou forte.
Mas
sei que entrei nesse lugar.
Não
sei se entrei na mente, ou no coração.
Ou
só envolvi por alguns instantes...
Mas
sei que tentei ser vento bom.
Que
leva as impurezas e que traz a chuva e o sol quente.
Agora
serei vento em outro lugar,
E
tentarei ser vento bom por todos os lugares em que soprar.
E a menininha se foi. Seu Venceslau ainda sorria por
passar mais um dia de vida em que um pequeno ser tinha notado sua presença, de
igual para igual. Sentiu-se humano novamente e amou, amou profundamente
aquela criança que dificilmente iria ver novamente.
Iracema
Goor Xavier

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